Quantos dos teus desejos são realmente teus?
O carro que você quer. A viagem que você planeja. O modelo de casamento que você defende. A carreira que você persegue. O tipo de corpo que você busca. A idade em que você acha que deveria ter filho. O bairro em que você quer morar.
Tudo isso nasceu dentro de você? Ou foi implantado, ao longo dos anos, pela cultura, pela mídia, pelo ambiente, pelas pessoas ao teu redor?
Este texto é uma investigação difícil. Se você aceitar fazer, vai descobrir que boa parte do que você acha que quer, na verdade você aprendeu a querer.
O papagaio repete o que ouviu
Uma verdade dura sobre a maioria das pessoas: elas estão vivendo uma vida que não foi feita para elas.
Não é por burrice. Não é por fraqueza. É porque desde muito cedo você foi exposta a um mesmo conjunto de referências, e essas referências vão formando o que você acha que quer.
Você viu novela onde a heroína casa aos vinte e cinco. Você viu campanha onde a mulher realizada mora em apartamento grande. Você viu revista onde carreira profissional bonita segue certos padrões. Você viu Instagram onde vida boa envolve viagem, jantar, corpo em forma, marido presente.
Nada disso é escolha tua. É referência consumida. E ao longo de anos, essas referências vão virando parecer com desejo — sem que você perceba a substituição.
Você vira papagaio que repete um roteiro que a sociedade escreveu. E quando repete com convicção — quando pega o roteiro com forte compromisso emocional — você acha que está sendo autêntica. Mas só está sendo bem programada.
Casar porque é hora. Divorciar porque virou fácil.
Presta atenção num padrão clássico da nossa geração.
Uma mulher casa aos vinte e cinco porque parecia hora. Aos trinta e cinco, começa a sentir que o casamento pesa. Aos trinta e sete, ouve nas rodas de amigas que divorciar é legítimo, moderno, corajoso. Aos trinta e oito, divorcia.
Aos quarenta, entra em novo relacionamento porque a cultura diz que é tempo de recomeçar. Aos quarenta e dois, casa de novo. Aos quarenta e sete, sente peso outra vez. Aos quarenta e nove, divorcia outra vez.
Nenhuma dessas decisões foi realmente sua. Foi a cultura oferecendo opções disponíveis, e você seguindo a que estava mais evidente no momento.
Não é sobre casar ou divorciar estarem certos ou errados. É sobre a origem da decisão. Uma decisão tomada porque nasceu de reflexão profunda tua é completamente diferente da mesma decisão tomada porque estava culturalmente disponível naquela hora.
A primeira sustenta consequência. A segunda produz confusão.
A dívida pra impressionar quem você despreza
Uma das expressões mais evidentes de desejo emprestado é a dívida.
Você faz financiamento pra comprar carro que você não precisa, pra pessoas que você nem vai encontrar semanalmente verem. Você reforma casa acima do orçamento pra que os visitantes — que você meio não quer que venham — vejam algo bonito. Você entra em plano de saúde premium pra falar que tem, mesmo sem usar. Você viaja pra lugares que você não gostou tanto assim pra postar foto.
Tudo isso te endivida. E o pior é que a divida não é sequer para pessoas que você realmente admira. É pra plateia que você secretamente despreza — mas cuja aprovação você aprendeu a precisar.
Você vive uma parte significativa da tua vida performando pra pessoas que, se você fosse honesta contigo, você nem gostaria que estivessem na plateia. Isso é gestual dos mais tristes da vida contemporânea. E é poucas mulheres a maiores de 35 anos que não passaram por isso em algum grau.
Quando você começa a notar isso, uma parte de você revira o estômago. Por raiva mesmo. Por ter dedicado tantos anos, tanto trabalho, tanto dinheiro, a impressionar quem não merecia sequer teu tempo.
Quando a vida emprestada desmorona sob pressão
Vida emprestada funciona até aparecer pressão de verdade.
A pressão pode vir em muitas formas: uma doença inesperada, uma perda de emprego, um luto grande, uma traição, uma quebra financeira, uma crise dos quarenta.
Quando essa pressão chega, você descobre que a vida que você construiu não tem gravidade. As escolhas que você fez para agradar plateia não te sustentam agora. As amizades que você manteve por conveniência somem. Os projetos que você seguiu por conformidade já não têm propósito.
Você descobre que construiu uma vida de fachada. E que fachada não resiste a peso real.
É nessa hora que muitas mulheres entram em depressão real. Mas não é depressão clínica primeiramente. É luto. Luto pelos anos gastos vivendo uma vida que não era pra ela. Luto pela ilusão de que essa vida seria suficiente.
Esse luto é necessário, mas doloroso. E do outro lado dele, se você atravessar, tem a possibilidade de começar a construir uma vida com raiz.
A arquitetura da própria vida
Se você não assumir o controle da arquitetura da tua vida, alguém já assumiu.
Pode ser tua mãe, projetando em você o que ela não teve coragem de viver. Pode ser teu marido, moldando teu ritmo aos desejos dele. Pode ser teu chefe, empurrando teus limites cada vez mais longe. Pode ser a mídia, definindo o que é vida boa. Pode ser teu grupo de amigas, decidindo o que é aceitável.
Enquanto você não assume, alguém está assumindo. E os planos dessa pessoa — ou desse sistema — quase nunca são realmente para o teu benefício.
Quem não está correndo atrás dos próprios sonhos, vai acabar trabalhando para correr atrás dos sonhos de outra pessoa. Isso é lei praticamente universal.
Assumir a arquitetura começa com uma pergunta e um trabalho. A pergunta é: o que eu realmente quero — se tirar da equação o que os outros esperam? O trabalho é sentar com essa pergunta até respostas honestas emergirem, mesmo quando essas respostas são inconvenientes.
Se você quiser um caminho estruturado para começar essa construção autoral, escrevi dois materiais que talvez ajudem. O Guia de Clareza Emocional te ajuda a separar o que é desejo próprio do que é desejo implantado (R$ 9,90). E o Recomeço Feminino em 7 Dias te leva por sete pequenos passos para começar a construir uma vida em cima do que é realmente teu (R$ 47).
Não é tarde para começar. Mas cada ano que passa, o custo de assumir aumenta. Começar hoje custa menos do que começar daqui a cinco anos. E começar daqui a cinco anos custa menos do que nunca começar.
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